Numa manhã em que o Brasil parou para acompanhar o que seria o início de uma caminhada pelo resgate moral do Supremo Tribunal (STF), a sessão marcada para decidir sobre a abertura de investigação contra Alexandre de Moraes virou um barraco digno de banco de praça, com baixarias, berros, xingamentos e manobras. E o verdadeiro objetivo, que é apuração da suposta corrupção de Moraes com Daniel Vorcaro, agora pode ficar para o ano que vem, graças à manobra do ministro Flávio Dino, correligionário político e último indicado de Lula para a corte, que pediu vistas ao procedimento.
A pauta da sessão, marcada para ontem pelo presidente Edson Fachin, era o plenário voltar pela abertura ou não de uma investigação oficial das suspeitas envolvendo Moraes. Mas a ala da primeira turma, que tenta blindar Moraes não permitiu que isso acontecesse. Eles conseguiram de última hora, através de um pedido de Cristiano Zanin, penúltimo indicado de Lula ao STF, novos dados do celular de Vorcaro, com conteúdos que mencionam benefícios de Vorcaro a parentes dos ministros Kassio Nunes e Luis Fux.
Em cima disso, Gilmar Mendes apresentou uma questão de ordem, propondo uma nova investigação que pode durar anos, na qual todos os ministros e demais agentes públicos sejam incluídos no inquérito que cita Alexandre de Moraes. Além disso, pediu que Moraes e André Mendonça fosse julgados juntos, reforçando a falsa equivalência entre as acusações de corrupção do primeiro e de erros procedimentais do segundo. Esse tema tomou a prioridade da sessão, que acabou no início da noite com um placar, ainda provisório de 4 a 3 pela rejeição da questão de ordem.
Ou seja, nem mesmo a manobra da ala pró Moraes teve a votação concluída na sessão de ontem, o que dizer da verdadeira pauta que, agora com os 90 dias do pedido de vista de Flávio Dino, pode nunca vir a ser apreciada, a depender das manobras que a turma de Moraes fará nesse período.
Assim, o STF segue mergulhado na lama, com um de seus membros sob graves suspeitas e outros tentando blindá-lo, mas todos se dizendo cumpridores da lei. Restou o triste pronunciamento da ministra Carmem Lúcia, por ironia do acaso, a última a falar e fechar a sessão de circo, se dizendo envergonhada e pedido perdão aos brasileiros pelo que o STF tem apresentado nos últimos dias. “Nós promovemos um constrangimento civilizatório ao país”, fechou a decana.






